Um dia de sofredor

abril 27, 2007

“Ô, ô, ô, ô, corintiano, maloqueiro e sofredor, graças a Deus!” é um dos gritos mais tradicionais da torcida corintiana, com o qual eu me identifico (talvez não seja tão maloqueiro). Ontem, pela primeira vez no ano, me dispus a acompanhar o Timão no estádio e o resultado não foi muito agradável: 2 x 0 para o Náutico e a eliminação da Copa do Brasil.

Meu dia de sofredor começou no trabalho, onde as coisas não aconteceram da forma como eu imaginava. Mesmo com os problemas, consegui sair no horário previsto e cheguei em casa a tempo de me arrumar e ir ao Pacaembu com tranqüilidade.

No ônibus que me levou ao estádio, o motorista estava discutindo com um torcedor que usava cadeira de rodas. Pelo que entendi da confusão, a pessoa entrou pela porta de trás sem avisar o “piloto” e isso acirrou os ânimos. “Eu sei que você não precisa pagar passagem, mas tem que tomar cuidado na hora de entrar no busão”, dizia o motorista. “A questão não é pagar passagem, queria ver se você tivesse um filho com deficiência física”, respondia o cidadão.

Desci próximo ao portão principal, só que o meu ingresso era do tobogã. Faltavam uns 20 minutos para o jogo começar quando vejo a fila imensa que estava para entrar no estádio. O jeito foi acompanhar pelo rádio a entrada do time e os 15 minutos iniciais da partida, inclusive o primeiro gol do Náutico. Segundo o comentarista, o Jean falhou mais uma vez (o que eu comprovei depois).

Como bom jornalista, dou a notícia àqueles que estavam próximos a mim e ainda tenho que escutar: “essa era a única coisa que eu não queria ter ouvido de você”. Concordo com o cara, mas acreditava que o Timão teria capacidade de ao menos empatar o jogo.

Já dentro do Pacaembu, vejo que a coisa vai ser mais difícil do que parece. O Eduardo Ratinho escorrega e o cara do Náutico só não faz o segundo por incompetência. Quando me conformava em ver o primeiro tempo terminar 1 x 0, sai o segundo do time pernambucano, novamente em uma jogada pelo lado direito da defesa corintiana.

O Ratinho saiu no intervalo, mas um time que tinha Wilson e Allisson no ataque não pode ir longe. O Lulinha, assim como seu xará famoso, é ainda uma esperança, mas ontem pouco fez. O Everton melhorou como ala, enquanto o Carlão como terceiro zagueiro é uma piada. Senti saudades do William e do Roger, desejei que o Rosinei abandonasse logo o Timão e pensei que o resultado poderia ser outro se o Arce não tivesse sido substituído.

Um torcedor invadiu o campo, a galera começava a se revoltar: mais uma eliminação. As perspectivas para o Brasileirão são terríveis e vou continuar sofrendo cada vez mais. Pelo visto, irei muito ao Pacaembu neste ano, pois quanto pior a equipe, mais vontade eu tenho de ir ao estádio. Mas isso é assunto para outro post.


Especial Racionais MC’s – Dos Tempos Difíceis à Vida Loka

abril 23, 2007

O grupo Racionais MC’s, considerado o mais importante da história do rap nacional, se formou em 1988, quando dois moradores da Zona Sul (Mano Brown e Ice Blue) se uniram a dois moradores da Zona Norte (Edi Rock e KL Jay) de São Paulo. Naquele ano, eles participaram com duas músicas (“Pânico na Zona Sul” e “Tempos Difíceis”) da coletânea Consciência Black e, em 1990, lançaram o álbum “Holocausto Urbano”.

racionais1.jpg 

De lá para cá, o quarteto da periferia paulistana teve méritos para se livrar dos tempos difíceis de perseguição policial, miséria, trabalho por pouco dinheiro, etc., e chegar à vida loka, em que eles podem quebrar a banca com carros GTI e motos de 1.000cc. Samples de qualidade aliados às letras que retratam com fidelidade a realidade de milhões de brasileiros foram a chave desse sucesso próximo de completar 20 anos.

Nos próximos posts, vou analisar disco a disco, música por música, a evolução desse grupo que “revolucionou os anos anos 1990 e o século 21”, como diz o Mano Brown. É esperar para ver.


507 anos de Êh, Brasil!

abril 22, 2007

Neste 22 de abril, não poderia deixar passar em branco que há 507 anos o Brasil era descoberto por Pedro Álvares Cabral. Em vez de escrever uma frase otimista como “o Brasil é o país do futuro”, “Deus é brasileiro”, “aqui plantando tudo dá”, “sou brasileiro e não desisto nunca”, “é Lula de novo com a força do povo”, etc., dou meus parabéns a esse país com a imagem abaixo:

 

eh-brasil.jpg

 

Em 2000, cinco meses depois de o País ter completado 500 anos de existência, a nação foi representada por dezenas de atletas nas Olimpíadas de Sydney. Na ocasião, fazia a cobertura da competição na madrugada brasileira pelo site Gazeta Esportiva.Net e, entre uma amarelada e outra dos competidores tupiniquins, lamentava os maus resultados com a seguinte frase: Êh, Brasil! Essa exclamação saía de forma espontânea e nem sei por que a escolhi. 

Por mais que a frase tenha originalmente uma conotação negativa (em síntese, a incapacidade de os brasileiros serem eficientes nos momentos de decisão), creio que podemos usá-la também para enaltecer as coisas boas da nossa terra. Para ficar só em um exemplo, exalto a liberdade religiosa que o país possui, mesmo que isso resulte em casos como este (Êh, Brasil).

 

 


Esse é o Brasil que eles querem que exista

abril 21, 2007

O Big Brother Brasil 7 já acabou, o Alemão levou R$ 1 milhão para casa, mas a imagem abaixo, transmitida no programa do dia 12/02/07, me fez lembrar de um trecho da música “Voz Ativa”, dos Racionais MC’s:

tresamigos.jpg

Mas onde estão
Meus semelhantes na TV
Nossos irmãos
Artistas negros de atitude e expressão
Você se põe a perguntar por que
Eu não sou racista
Mas meu ponto de vista é que
Esse é o Brasil que eles querem que exista
Evoluído e bonito, mas sem negro no destaque
Eles te mostram um país que não existe
Escondem nossa raiz
Milhões de negros assistem
Engraçado que de nós eles precisam
Nosso dinheiro eles nunca descriminam
Minha pergunta aqui fica
Desses artistas tão famosos
Qual você se identifica?
 

Precisa dizer mais alguma coisa? 

Agradecimentos ao blog De Cara para Lua, pois foi o único lugar onde encontrei a foto que eu queria. 

Ps. Em breve começarei o Especial Racionais MC’s. Aguardem!!!


Igreja Renascer e o “cartão que evangeliza sozinho”

abril 18, 2007

Em fevereiro de 1995 compus meu segundo rap cristão, “MC Empada”, em que adotei o meu “nome artístico”. Naquela época, muito mais do que hoje, assumir a condição de crente, evangélico, etc. era algo que rendia muitas piadas dos colegas, principalmente se você fosse adolescente. Então, resolvi falar na música do preconceito que atingia os cristãos protestantes, apesar de em um trecho reconhecer que a associação automática de crente com alguém que está sendo roubado por um pastor mal-intencionado tinha uma certa base:

“…Conto do vigário não, conto do pastor
Que vem com aquela carinha cheia de amor
E rouba o dinheiro das camadas populares
Para investir em seus imensos lares
Eu sei que isso acontece, é a realidade
Mas vamos separar o joio do trigo não é verdade
Isso daí não está certo não
Eles são somente a exceção
E este tipo de pastor não está com nada
Aqui quem fala, MC Empada!…”

Esse nariz-de-cera, além de servir para propagandear minha música, é necessário para introduzir o assunto que quero: a prisão do casal Estevam e Sônia Hernandes.

Em 95 já não me empolgava com os fundadores da Igreja Renascer. No início da minha vida cristã, eu tinha uma visão positiva daquela igreja que investia na conversão de jovens da classe média, ao trazer para o Brasil novidades da música gospel. Cheguei a ouvir bastante a Gospel FM 102,5, fui a um SOS da Vida e, no dia da morte do Ayrton Senna (1º/05/1994), estava em um evento organizado por eles.

sonia-hernandes.jpgNo começo, o Estevam era pastor. Depois, virou bispo, até que se tornou apóstolo. Fiquei sabendo que a marca “gospel” tinha sido patenteada pela igreja. Rolava um boato de que a Sônia, já apelidada de “perua de Deus” e futuramente bispa, ganhara uma rifa de uma BMW (!) da própria igreja.

 

De todos esses casos, o mais curioso, para mim, é o tal Cartão Gospel Bradesco Visa. Era o lançamento dos cartões de afinidade e a Renascer fez o seu, inclusive com uma propaganda sensacional (para não dizer ridícula), que terminava com a frase: “Cartão Gospel Bradesco Visa, o cartão que evangeliza sozinho”.

carao-bradesco-visa.gifO slogan se justificava porque no cartão estava escrito parte do texto de João 14:6 “Respondeu-lhe Jesus: eu sou o caminho, e a verdade e a vida”. A lógica era simples: você, como bom cristão que acredita na teologia da prosperidade, faria muitas compras com seu cartão e os vendedores, ao lerem o versículo, se converteriam automaticamente!

A preocupação com o marketing em vez de uma vida íntegra diante de Deus é que deve ter feito o casal ter caído e, hoje, esperar ansiosamente o julgamento nos Estados Unidos. Creio que muitos dos fiéis da Renascer levam uma vida séria com o Senhor, mas como o exemplo vem de cima, fica difícil acreditar que um dia a igreja recuperará a sua credibilidade.

Assim, deixo aqui as palavras do apóstolo Paulo à Igreja de Corinto:

“Aqueles homens são apóstolos falsos e não verdadeiros. Eles mentem a respeito dos seus trabalhos e se disfarçam, apresentando-se como verdadeiros apóstolos de Cristo. E isso não é de admirar, pois até Satanás pode se disfarçar e ficar parecendo um anjo de luz” (II Coríntios 11:13-14, Nova Tradução Linguagem de Hoje)


Carpegiani no Corinthians

abril 15, 2007

Descobri durante a transmissão de São Paulo x São Caetano que o Carpegiani é o novo técnico do Corinthians. Não fiquei muito empolgado, mas acredito que ele pode fazer um bom trabalho.

A última vez que eu acompanhei o Carpegiani dirigindo um time foi em 1999, quando ele treinou o São Paulo. Naquele ano, com Paulão e Wilson na zaga, não dava para exigir muito da equipe do Morumbi, que chegou às finais do Paulistão e do Brasileiro.

Diga-se de passagem: foi o Timão que eliminou o Tricolor nesses dois campeonatos. No Paulistão, vitória de 4 x 0 e empate em 1 x 1. Já no Brasileiro, que custou o emprego do treinador, duas vitórias corintianas: 3 x 2 e 2 x 1.

Vamos ver se, como em 99, o Carpegiani vai dar muitas alegrias ao Coringão.


Melhor Corinthians do meu tempo: Dida – Camisa 1

abril 13, 2007

A primeira vez que eu assisti a um jogo em um estádio de futebol foi no dia 15 de julho de 1987, quando o Corinthians venceu o Mogi Mirim por 3 a 1, pelo Campeonato Paulista, no Pacaembu. Como tinha seis anos, não me lembro de muita coisa dessa partida, apenas que estava vestido com uma camisa “genérica” do Timão.

Dida no TimãoApesar de ir a estádios desde 87, resolvi adotar o critério para o “Melhor Corinthians do meu tempo” a partir de 1990, quando já tinha mais noção do que acontecia dentro dos gramados. Logo de início, a minha opção vai causar polêmica. No gol, em vez de escolher Ronaldo, que atuou como titular do Timão por 10 anos, fico com Dida.

Nascido em 1973, o baiano Nelson de Jesus Silva, o Dida, começou sua carreira profissional no Vitória em 1992 e, no ano seguinte, conquistava o Campeonato Mundial Sub-20 pela Seleção e se tornava vice-campeão brasileiro pelo rubro-negro da Bahia. Aliás, no dia 5 de dezembro de 1993, eu era uma das 65 mil pessoas no Morumbi que viram o Vitória de Dida empatar com o Timão por 2 a 2, resultado que colaborou para a eliminação do Corinthians. Dida no Vitória(Neste jogo, houve um fato curioso: o goleiro Ronaldo marcou um “gol contra”. O Vitória teve uma falta em dois lances que o Roberto Cavalo cobrou direto para o gol e, como o Ronaldo tocou na bola antes de ela entrar, o gol foi validado).

Depois do sucesso meteórico, Dida foi para o Cruzeiro em 1994 e ficou lá até 1998. Nesse período, destaque para o título da Copa do Brasil de 96, quando ele teve uma atuação marcante na final contra o Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo. “O Dida parou nossa equipe, defendendo bolas que normalmente um goleiro não pega. Ele garantiu o título para o Cruzeiro”, afirmou o lateral Cafu à Folha de S.Paulo.

Com a derrota na final do Brasileirão de 98 para o Timão, Dida resolveu deixar o Cruzeiro em direção ao Milan, que o emprestou para o Lugano (SUI) e, finalmente, ao Corinthians. Foi na campanha do Brasileiro de 99 que o goleiro se consagrou. Veja este lance.

Aqui, tenho que abrir parênteses. A época em que eu era mais “fanático” pelo Timão foi na adolescência, quando o São Paulo vivia sua “Era Raí”. Estava no estádio no fatídico São Paulo 3 x 0 Corinthians, pela final do Paulistão-91, e vi oito gols do Raí in loco contra o Timão. Então, quando o Dida defendeu dois pênaltis do irmão do Sócrates em um mesmo jogo, foi a redenção.

Na campanha do Mundial, então, Dida foi fundamental. Acompanhei das arquibancadas a defesa do pênalti do Anelka, que garantiu o empate contra o Real Madrid por 2 a 2, e vibrei pela TV ao ver sua frieza na decisão com o Vasco (repare na “comemoração” dele após a perda do pênalti do Edmundo).

Com os títulos brasileiro e mundial na bagagem, Dida voltou ao Milan e retornou ao Corinthians no final de 2001, a tempo de conquistar o Torneio Rio-São Paulo e a Copa do Brasil de 2002. Enquanto ele não volta para encerrar a carreira no Parque São Jorge, o jeito é torcer por Marcelo e Jean…

Fotos: Gazeta Esportiva