Êh, Brasil! antes da hora

julho 13, 2007

Havia prometido que, durante os Jogos Pan-americanos, escreveria posts diários para comentar a atuação do Brasil na competição. Quando disse aquilo, pensei que em julho estaria de férias, o que não aconteceu.

Mesmo sem reiterar a promessa, tentarei ao máximo escrever sobre as amareladas, palhaçadas e outros desempenhos pífios dos atletas brasileiros. Hoje, dia da Cerimônia de Abertura, já tenho o que falar.

As brasileiras que já atuaram foram bem. No futebol, 4 a 0 no Uruguai, e no handebol, massacre de 38 a 15 no México. Fora das arenas de competição, no entanto, tivemos coisas inacreditáveis, como a espadada e o chá verde que tiraram, respectivamente, Ivan Schwantes e Jaqueline do Pan.

Sem falar na Daiane, que já tem a desculpa para ficar fora do pódio. Isso é só o começo

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Não só de Pan viverá o homem

julho 7, 2007

Enquanto os Jogos Pan-americanos Rio 2007 não começam, fica uma dica esportiva para o final de semana: que tal acompanhar a rodada de abertura da Série C do Brasileiro?


Site dos Racionais MC’s

julho 3, 2007

Quem adquiriu o DVD “1000 Trutas 1000 Tretas” dos Racionais, que é muito bom, por sinal, vê que na contracapa há um endereço de Internet: www.racionais.tv. Hoje, se você clicar no link, acessará apenas uma mensagem de erro, mas futuramente esse será o endereço do site oficial do principal grupo de rap do Brasil.

A informação foi passada por Claudir, um dos mediadores da comunidade do Orkut Originais do Rap. No site dos Racionais, estará disponível para download a nova versão da música “Eu sou 157”, que, de acordo com Claudir, está 100% melhor (isso eu quero ver, pois a versão atual já arrebenta).

A grande questão é quando o site estará no ar. Pelo histórico dos Racionais, o “em breve” deles indica “no próximo ano”. O jeito é aguardar.


Especial Racionais MC’s – Raio-X do Brasil: “A periferia como ela é”

julho 1, 2007

Estamos no final de 1993 e os Racionais, f… voltando, como eles mesmo dizem na abertura do álbum, lançam o seu terceiro disco. No ano seguinte, o grupo começaria a atingir um público que não estava acostumado a ouvir rap nacional, quando as músicas “Fim de Semana no Parque” e “Homem na Estrada” passaram a fazer parte da programação de rádios pop, como Jovem Pan e Transamérica.

Capa do disco“Usando e abusando da liberdade de expressão, um dos poucos direitos que o jovem negro ainda tem neste país”, os Racionais fazem um retrato do que é a periferia, principalmente nas músicas citadas acima. Quem não mora num lugar em que há “milhares de casas amontoadas” e onde “até o IBGE passou e nunca mais voltou” começa a entender um pouco do sofrimento daqueles que vivem nas “quebradas”.

Por mais que reconheça que “na periferia a alegria é igual”, o grupo escancara as desigualdades que há na sociedade. Essas desigualdades acontecem entre playboys e manos, ex-presidiários e “homens de bem”, traficantes e “cidadãos comuns com um pouco de ambição”. Em todos os casos, porém, o responsável por essa diferença é sempre o mesmo: dinheiro.

“Sim, ganhar dinheiro, ficar rico, enfim”. Essa é a frase repetida quatro vezes por Mano Brown em “Homem na Estrada”. Mas também poderia ser dita pelo menino que olha o clube do lado de fora, em “Fim de Semana…”, pelo personagem de “Mano na Porta do Bar” e até pelo tipo de mulher descrito em “Parte II”. E, para atingir esse objetivo, as pessoas são capazes de tudo, pois abandonam sua vida pacata para entrar no mundo do crime.

É a partir deste disco que a questão da criminalidade fica mais explícita nas músicas dos Racionais. O modo como as drogas destroem a periferia e causam a morte de muitos moradores da favela estão presentes nas três faixas mais conhecidas do disco: “Fim de Semana…”, “Mano na Porta do Bar” e “Homem na Estrada”. Sobre a violência policial, então, a pioneira “Pânico na Zona Sul” parece coisa de criança perto de versos como “Não confio na polícia, raça do c….” e “Vão invadir o seu barraco, é a polícia/Vieram para arregaçar, cheios de ódio e malícia/fdp, comedores de carniça”.

O preconceito racial fica para escanteio neste disco, apesar da faixa “Júri Racional”, que faria mais sentido se tivesse sido incluída no disco anterior, “Escolha o Seu Caminho”. Aliás, há um trecho sensacional nesta música: “se soubessem o valor que a nossa raça tem, tingiam a palma da mão pra ser escura também”.

Bem, vamos às análises das músicas:

1 – Fim de Semana no Parque: Apesar de a música ser dedicada a “toda comunidade pobre da Zona Sul”, qualquer morador de periferia do Brasil se identifica com o que é retratado. E mesmo os playboys começam a pensar em suas vidas ao ouvir o retrato que Mano Brown faz de “sua área”.

Se quando chega o fim de semana todos querem diversão, cada um se diverte como pode. Enquanto os boys lavam seus carros e se preparam para ir ao Guarujá (atualmente, poderia ser Maresias) e os tiozinhos levam seus filhos a parques maravilhosos, os manos jogam basquete e a pivetada brinca descalça nas ruas de terra, gritando palavrão. Isso quando não encontram uma arma perdida na mata.

Lógico que essas crianças gostariam de ter bicicletas, mas precisam se contentar a olhar o parque do lado de fora. Aliás, como diz Brown, fica difícil brincar quando “aqui não vejo nenhum clube poliesportivo/pra molecada freqüentar, nenhum incentivo/o investimento no lazer é muito escasso/o centro comunitário é um fracasso”.

Como não têm a condição ideal para se divertirem, o jeito é se entregarem “aos nomes estrangeiros que estão no nosso meio para matar”, como as marcas de arma Schmidt, Taurus e Rossi, ou as bebidas Dreher e Campari. Assim, muitos “manos Rogério” acabam morrendo nas mãos de “imbecis”.

Neste disco tem DumingazNa parte musical, a curiosidade fica para o refrão, que é formado por samples de três frases (“vamos passear no parque”, “deixa o menino brincar” e “vou rezar para este domingo não chover”) de duas músicas de Jorge Ben (“Dumingaz” e “Frases”).

2 – Parte II: Posso estar enganado, mas o título da faixa deve remeter a “Mulheres Vulgares”, que seria a “Parte I”. Essa constatação eu tiro da forma como as duas músicas fazem críticas ácidas às mulheres interesseiras.

Se em “Mulheres” os homens são apenas aconselhados a se afastarem desse tipo de mulher, em “Parte II” Edy Rock está menos conivente com o “Dom Juan das vagabundas”. “Mulher de mano é mesma coisa que homem/não gosto de me envolver nem me imagino/isso é mancada de canalha/c… que sempre deu falha/merece tomar salva de bala na cara”.

No entanto, as críticas às mulheres também estão mais pesadas, com uma desnecessária generalização. “Não gostam, não vivo, não penso nas minhas palavras pra falar/mestiça, negra ou branca sempre sai uma vagabunda” e “mulher também entra nessa/mas a metade eu te garanto que não presta” são algumas das frases nada aprazíveis às pessoas do sexo frágil.

No início da música, na parte em que há um diálogo entre a “mulher vulgar” e Edy Rock, o sample é da música “Cleo’s Apartment”, de Marvin Gaye. No refrão, há um “auto-sample” de “Mulheres Vulgares”, no trecho em que se canta “ela te troca por outro”.

3 – Mano na porta do bar: Neste disco, Mano Brown se mostra um ótimo contador de história, e esta faixa é um exemplo disso. O relato da vez é de um homem que tem tudo o que sempre quis e leva uma vida sossegada, mas mesmo assim opta por partir para a criminalidade.

Essa decisão se dá pela falta de dinheiro. Quando começa o desejo de ter um carro confortável e a vontade de ser mais notado, passa a desprezar suas amizades, pois “seu amigo é dinheiro no bolso”. Seus companheiros de outrora são substituídos por “uma pá de tipo estranho/que promete pra ele o mundo dos sonhos”.

Com uma arma na cinta, agora, esse mano passa a ter aquilo que queria: sua mina apaixonada dá lugar a várias mulheres, sua ascensão é notada por todos, além de muitos dólares no bolso. Para conseguir isso, não importa se precisou matar e viciar a molecada da sua região.

No final da música, porém, “a casa cai”. Como em muitos outros raps dos Racionais, não há apologia ao crime, mas sim um alerta para que esse caminho não seja seguido. O sucesso do criminoso é efêmero e acaba com uma rajada nas costas.

Caso não conheça a música, clique aqui e veja este vídeo que contém a tradução da letra do rap para o inglês. Se quiser saber a fonte de onde os Racionais beberam para fazer a batida, assista a este clipe de “Freddie’s Dead”, de Curtis Mayfield (música tema do filme “Superfly“).curtis-mayfield.jpg

4 – Homem na Estrada: não é difícil descobrir porque esta é a música preferida do senador Eduardo Suplicy (não perca o vídeo de suas performances no Programa do Jô, no Pânico e até no Senado). A letra de Mano Brown nos deixa paralisado ao contar a trajetória de um ex-presidiário que tenta sua reinserção na sociedade, tendo como pano de fundo “um cômodo, mal acabado e sujo” em “um lugar onde só tinham como atração, o bar, e o candomblé pra se tomar a benção”.

Se em “Mano na porta do bar” o bandido tem ascensão e queda meteóricas, aqui o personagem sofre aos poucos. Fica subentendido que ele cometeu um crime, foi para cadeia e cumpriu sua pena. No entanto, mesmo em liberdade, ele continua pagando pelo que fez. “E o resto da madrugada sem dormir, ele pensa/o que fazer para sair dessa situação/desempregado então, com má reputação/viveu na detenção, ninguém confia não/e a vida desse homem para sempre foi danificada”.

Mas por que será que isso acontece? A própria música explica em outro trecho: “na calada cagüetaram seus antecedentes/como se fosse uma doença incurável/no seu braço a tatuagem/DVC, uma passagem/157 na lei, do seu lado não tem mais ninguém/a Justiça Criminal é implacável/tiram sua liberdade, família e moral/mesmo longe do sistema carcerário/te chamarão para sempre de ex-presidiário”.

Para piorar a situação do cidadão, ele passa a ser procurado por um crime que não cometeu. Ele se desespera, tenta se defender com sua “treze tiros automática”, só que os diversos calibres dos policiais “cheios de ódio e malícia” são mais potentes e o ex-presidiário acaba morrendo. Ao contrário do que desejava, seu filho será “mais um pretinho na Febem (atual Fundação Casa)”.

Por mais que Mano Brown insulte os policiais nesta música, quem presta atenção na letra nota que não há apologia ao crime. Pelo contrário. É um recado claro de que, nesta sociedade, “uma vez criminoso, sempre criminoso” e, parafraseando o apóstolo Paulo, “o salário do crime é a morte”. Não espere justiça para o pobre que escolhe o “caminho mais fácil”. Como já tem passagem pela cadeia, o cidadão morre e ninguém sentirá falta. Posso até ouvir os comentários da maioria da população de que o cara “já foi tarde” e que “bandido merece morrer mesmo”.

Na Era Pré-PCC, Brown fazia um quadro perfeito da forma como o sistema penitenciário não existe para ressocializar ninguém. Por mais que queira mudar, ter um futuro melhor, o “homem na estrada” acaba da forma como temia: “num necrotério qualquer, um indigente, sem nome e sem nada”.

Antes de terminar este extenso relato, não poderia deixar de falar algumas coisas. É nesta faixa que pela primeira vez os Racionais fazem alusão ao crack, droga que vem para acabar com a periferia e que é praticamente um “personagem” no disco seguinte do grupo, “Sobrevivendo no Inferno”.

E nunca mais voltou...Na parte musical, o sample é da música “Ela Partiu”, de Tim Maia. Por fim, confira este vídeo com a letra traduzida para o inglês.

5 – Júri Racional: se alguém tem vontade de dizer que os Racionais são “racistas contra os brancos”, esta música é um prato cheio para fundamentar o argumento. Parece que os integrantes defendem uma “raça negra pura” neste trecho da música: “você não precisa delas/se existem negras tão belas, se pode ter as melhores/por que ficar com as piores burguesas cadelas?”.

No entanto, esta música não é contra os brancos, mas sim contra o negro que se sente inferior “à outra raça”. No júri racional, o negro que “vendeu a alma ao inimigo e renegou sua cor” é condenado “por ignorar a luta dos antepassados negros, por menosprezar a cultura negra milenar, por humilhar e ridicularizar os demais irmãos, sendo instrumento voluntário do inimigo racista”.

Com o “caso encerrado”, vale lembrar que a música usa o sample de “Cissy Strut”, do grupo The Meters.

6 – Fio da Navalha: para justificar a inclusão de um “não-rap” no disco, os Racionais explicam que “a música negra é como uma grande árvore, com vários galhos e tal”. Neste instrumental inspirado em “Main Theme for the Trouble Man”, de Marvin Gaye, em vez de o destaque estar nas letras de Brown e Edy Rock e na pick-up de KL Jay, quem dá as caras é Artur da Gaita, apresentado como um “mano da Zona Norte”.

Ps. Agradeço à comunidade do Orkut “Originais do Rap”, onde eu descobri a maioria dos samples que os Racionais usam. Parabéns pela iniciativa.